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Notícias

6/Julho/2009

Como a revitalização do porto pode mudar o Rio de Janeiro


Um plano bilionário quer embelezar uma zona suja e feia da cidade com museus, lojas e restaurantes, uma ideia que funcionou em outras metrópoles


No samba escolhido como trilha sonora do vídeo promocional para o projeto de revitalização do porto do Rio de Janeiro, o puxador canta: Vamos festejar/Salve o porto maravilha/A cidade quer sonhar. Uma letra mais adequada diria "a cidade quer realizar". Desde 1993, quando foi apresentado o primeiro projeto para recuperar o porto, o carioca vive a expectativa de ganhar um novo centro de lazer e turismo na decadente zona portuária. De lá para cá, outros três planos já foram apresentados, e nada saiu do papel. Já foram previstos uma versão local dos museus Guggenheim, a instalação de um grande aquário e muito mais. Há duas semanas, o prefeito Eduardo Paes mostrou sua proposta. E os cariocas se perguntam se o porto agora sai ou se, mais uma vez, a cidade ficará a ver navios.

Apresentado numa solenidade que teve a presença do presidente Lula e do governador Sérgio Cabral, o Porto Maravilha prevê obras de reurbanização em 1 milhão de metros quadrados a um custo de R$ 380 milhões, metade vinda do Ministério do Turismo, metade da prefeitura, por meio de um financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O plano tem duas fases. Na primeira, que deverá ser concluída em três anos, a prefeitura promete obras em todo o bairro da Saúde. Elas incluem repavimentar as ruas, recuperar fachadas históricas e aterrar fios de telefonia e eletricidade. Uma área de 35 mil metros quadrados onde hoje funciona um estacionamento, na parte final do porto, será transformada numa imensa praça com quiosques, restaurantes, chafarizes e um teatro para shows ao ar livre. Os armazéns do porto serão reformados e, atrás deles, com vista para a Baía de Guanabara, serão construídos restaurantes e um passeio público. Um convênio com a Fundação Roberto Marinho prevê erguer ali o Museu do Amanhã, que terá mostras interativas e discussões ambientais, além da Pinacoteca do Rio, onde serão expostas coleções e obras particulares. Uma garagem subterrânea abrigará mil carros, em dois andares.

A segunda fase é a mais ambiciosa. Prevê o lançamento de títulos no mercado que garantirão aos compradores o direito de construir na área. Com os R$ 3 bilhões que pretende arrecadar com a operação, a prefeitura fará obras de reurbanização completa em quatro bairros e derrubará um elevado. Se tiver sucesso, a operação mudará completamente a cara da região central do Rio, onde a cidade nasceu. "Aquela é uma região muito importante na cidade para ficar do jeito que está", disse o prefeito Eduardo Paes a ÉPOCA. "Muito já foi anunciado, e nada foi feito, mas temos pela primeira vez a união dos três governos. Desta vez, o projeto sai."

Desde a década de 1970, o centro do Rio vem sofrendo um esvaziamento. A população residente no local, que chegou a 240 mil moradores, caiu pela metade no Censo de 1999. Hoje, estima-se que sejam menos de 100 mil. Os moradores se foram, mas os imóveis ficaram. A degradação não tardou. Há cerca de 5 mil imóveis abandonados por ali. "Existe toda uma infraestrutura pronta, de água, esgoto, luz, que foi desprezada nos últimos anos por governos que tentaram fazer outras áreas da cidade crescer enquanto o centro encolhia", diz Jackson da Costa Pereira, vice-presidente do Sindicato da Indústria de Construção Civil do Rio.

Espera-se que a revitalização do porto sirva como estopim para iniciar um ciclo de desenvolvimento na região. Para trazer de volta os moradores, um convênio com a Caixa Econômica Federal prevê liberar uma linha de crédito de R$ 24 milhões destinada à construção de 499 casas. A prefeitura entrará com outros R$ 10 milhões. "Isso é para início imediato. Mas vamos construir na zona portuária outras 7 mil unidades a partir da restauração. A expectativa é que a revitalização traga grandes corporações interessadas em construir na região", diz o secretário de Habitação do Rio, Jorge Bittar.

A renovação do porto é crucial para o Rio porque o mercado imobiliário da cidade tem uma particularidade: o carioca de bom poder aquisitivo quer morar perto do mar. "Em São Paulo, basta ter um bom prédio numa boa vizinhança. No Rio, isso não adianta. A linha do mar é para onde vai a valorização", diz Rubem Vasconcelos, vice-presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário.

Em Londres, a revitalização de Canary Wharf, uma zona portuária histórica, criou um moderno distrito financeiro. Durante a década de 1980, o governo inglês lançou um plano para reurbanizar a região, encorajando empresários, comerciantes e moradores a ocupar a área das docas construídas no século XIX. O projeto de revitalização reformou os diques degradados para abrigar novas ruas, praças, restaurantes e arranha-céus. Os três maiores edifícios de Londres foram construídos no novo distrito financeiro. Entre 1993 e 2007, o número de pessoas que trabalhavam na região passou de 7 mil para 90 mil.

No Rio de Janeiro, além dos cariocas, o porto pode atrair turistas. Nos últimos sete anos, o número de cruzeiros que chegam à cidade cresceu 30% ao ano, segundo a seção fluminense da Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav). O Rio recebe um terço dos 6 milhões de turistas que visitam o Brasil. Para o presidente da Abav-RJ, Luiz Strauss, a renovação do porto pode fazer esse número dobrar num prazo de cinco anos após a conclusão das obras. "Temos exemplos no mundo todo de cidades que renovaram seu turismo a partir do porto", diz Strauss.

É verdade. Em 1989, o governo argentino e a prefeitura de Buenos Aires decidiram reconstruir um decadente porto do final do século XIX. A apenas cinco minutos do centro da cidade, Puerto Madero era um bairro fantasma. Para mudar sua paisagem desoladora, foi preciso um projeto de revitalização que custou o equivalente a R$ 4 bilhões, entre investimentos públicos e privados. Duas décadas depois, o metro quadrado da região é um dos mais caros da cidade. O boom imobiliário veio com a série de reformas: recuperação de prédios centenários, construção de arranha-céus e criação de áreas verdes. Puerto Madero virou passagem obrigatória para quem procura restaurantes, cinemas e bares badalados.

O projeto de lei para a criação dos títulos que financiarão a segunda fase das obras no porto do Rio segue no mês que vem para a Câmara Municipal. Ele prevê que o dinheiro arrecadado com a operação só poderá ser usado na região. Quem comprar os papéis e não quiser construir poderá negociá-los. É um negócio de risco. Se a prefeitura fizer sua parte, os papéis vão se valorizar. Se não fizer, o investidor ficará com um mico nas mãos. Nisso pesa o cronograma da obra: a segunda fase acontecerá em cerca de seis anos, quando Eduardo Paes já não será prefeito, a menos que se reeleja. Quando assumiu, em janeiro, Paes suspendeu as obras da Cidade da Música, maior projeto de seu antecessor, Cesar Maia. Os contribuintes pagaram mais de R$ 400 milhões pelo que, até agora, é um grande elefante branco. Paes diz que a obra está parada porque a prefeitura está investigando irregularidades.

A inacabada Cidade da Música, contudo, não é o único caso a ser lembrado por eventuais investidores no Porto Maravilha. Lançado no ano passado pela empresa imobiliária General Growth Properties (GGP), o projeto de recuperação do píer à beira do East River, em Nova York, não saiu do papel. Com dívidas de US$ 27 bilhões, a GGP pediu concordata em abril. Se até em Manhattan um projeto assim foi congelado, quem garante que ele vai funcionar no Rio?

Fonte: Epoca  (SP)



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